{"id":42,"date":"2015-08-13T19:27:36","date_gmt":"2015-08-13T19:27:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.abip.org.br\/site\/?p=42"},"modified":"2015-08-13T19:27:36","modified_gmt":"2015-08-13T19:27:36","slug":"dieta-livre-de-gluten-bom-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/dieta-livre-de-gluten-bom-para-todos\/","title":{"rendered":"Dieta Livre de Gl\u00faten. Bom para Todos?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A Sociedade Brasileira de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o levando em considera\u00e7\u00e3o dados da literatura cient\u00edfica pertinente e o documento a seguir, posiciona-se no sentido de que:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>a dieta sem gl\u00faten deve ser institu\u00edda na vig\u00eancia de doen\u00e7a cel\u00edaca, alergia ao trigo e de sensibilidade n\u00e3o cel\u00edaca ao gl\u00faten, desde que devidamente diagnosticadas;<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>a dieta sem gl\u00faten per se \u00a0n\u00e3o pode ser considerada ben\u00e9fica para indiv\u00edduos aparentemente saud\u00e1veis e que a falta de planejamento na sua institui\u00e7\u00e3o pode, ainda, potencialmente afetar a sa\u00fade do trato digest\u00f3rio.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que, em boa parte dos pa\u00edses ocidentais, a Nutri\u00e7\u00e3o possa ser considerada uma das ci\u00eancias mais atraentes ao p\u00fablico leigo. \u00c9 prov\u00e1vel que as maiores incid\u00eancias de obesidade, o estabelecimento de doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis e a crescente preocupa\u00e7\u00e3o com padr\u00f5es est\u00e9ticos r\u00edgidos sejam os principais respons\u00e1veis por esse novo boom e levem pessoas antes desinteressadas por assuntos relacionados \u00e0 sua alimenta\u00e7\u00e3o a se tornarem \u201cespecialistas\u201d em estrat\u00e9gias que contribuam para a melhora da sa\u00fade e da apar\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhece-se como muito salutar a busca por mais informa\u00e7\u00f5es nessa \u00e1rea, uma vez que a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o nutricional dependem da conscientiza\u00e7\u00e3o popular para serem eficazes. No entanto, atrav\u00e9s da veicula\u00e7\u00e3o pela m\u00eddia n\u00e3o especializada, observa-se a propaga\u00e7\u00e3o do que hoje se conhece por \u201cdietas da moda\u201d, as quais surgem com a premissa de promoverem a perda do peso e de melhorarem a sa\u00fade de forma generalista, sendo, todavia, pautadas em constata\u00e7\u00f5es emp\u00edricas ou em estudos recentes que por muitas vezes se mostram incompletos ou inconclusivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa \u201conda\u201d de dietas restritivas ou mon\u00f3tonas, observa-se a populariza\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o alimentar anteriormente adotado apenas por indiv\u00edduos portadores de doen\u00e7a cel\u00edaca (DC) ou de alergia ao trigo, caracterizado pela exclus\u00e3o de alimentos contendo gl\u00faten da dieta (gluten free diet).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pacientes cel\u00edacos apresentam uma altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que resulta na inflama\u00e7\u00e3o intestinal quando do contato com pept\u00eddeos oriundos da digest\u00e3o do gl\u00faten presente no trigo e em outros vegetais do mesmo g\u00eanero, como a cevada e o centeio. De forma simplificada, a gliadina resultante do metabolismo do gl\u00faten na luz intestinal \u00e9 transportada at\u00e9 a l\u00e2mina pr\u00f3pria do intestino delgado onde, ap\u00f3s metaboliza\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 induzir resposta imunol\u00f3gica adaptativa e inata e posterior produ\u00e7\u00e3o de mol\u00e9culas que promover\u00e3o o estabelecimento da inflama\u00e7\u00e3o, respons\u00e1vel pela atrofia dos vilos e hiperplasia nas criptas intestinais. A altera\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica da borda em escova leva \u00e0 redu\u00e7\u00e3o na capacidade absortiva e \u00e9 comumente observada em doentes cel\u00edacos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da DC, diversas evid\u00eancias recentes sumarizadas em um artigo de revis\u00e3o publicado este ano na revista Clinical Nutrition comprovam a exist\u00eancia de uma altera\u00e7\u00e3o cunhada por especialistas na \u00e1rea como \u201csensibilidade n\u00e3o-cel\u00edaca ao gl\u00faten\u201d (non-celiac gluten sensitivity-NCGS). Diferentemente do que ocorre na doen\u00e7a cel\u00edaca, na NCGS o trato gastrointestinal e a permeabilidade da barreira intestinal s\u00e3o preservadas, e as altera\u00e7\u00f5es histol\u00f3gicas dos vilos e das criptas n\u00e3o s\u00e3o intensas, havendo, todavia, o estabelecimento de in\u00fameros dist\u00farbios para o paciente que mant\u00e9m uma alimenta\u00e7\u00e3o convencional, rica em gl\u00faten. Ainda, observa-se infiltra\u00e7\u00e3o de linf\u00f3citos mais branda e inflama\u00e7\u00e3o de menor grau no trato intestinal quando comparadas com o observado em indiv\u00edduos com DC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A preval\u00eancia de NCGS \u00e9 maior do que a de DC e a de alergia ao trigo, sendo frequentemente observada em pacientes com s\u00edndrome do intestino irrit\u00e1vel e entre indiv\u00edduos acometidos por altera\u00e7\u00f5es alerg\u00eanicas diversas. Para o diagn\u00f3stico cl\u00ednico, sintomas comuns \u00e0 essa altera\u00e7\u00e3o \u2013 tais como cansa\u00e7o, dores de cabe\u00e7a, desconforto gastrointestinal, flatos e diarr\u00e9ia \u2013 devem ser abolidos quando o paciente suspende a ingest\u00e3o de alimentos contendo gl\u00faten. Todavia, n\u00e3o h\u00e1 nenhum exame bioqu\u00edmico eficaz para o diagn\u00f3stico preciso da condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independente da condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica apresentada, a terapia b\u00e1sica para indiv\u00edduos intolerantes ao gl\u00faten conta com a exclus\u00e3o de alimentos que contenham cevada, centeio e farinha de trigo. Curiosamente, desde o ano de 2004, o mercado de produtos livres de gl\u00faten vem crescendo aproximadamente 30% ao ano, o que n\u00e3o se deve ao aumento da incid\u00eancia de casos de intoler\u00e2ncia ao gl\u00faten ou ao maior rigor no tratamento dos pacientes, mas sim ao aumento da demanda gerada pela ades\u00e3o \u00e0 dieta gluten free (GF) entre indiv\u00edduos n\u00e3o-cel\u00edacos e n\u00e3o diagnosticados com NCGS. Segundo os pr\u00f3prios consumidores, a principal raz\u00e3o para a escolha de produtos GF \u00e9 a cren\u00e7a de que estes seriam mais saud\u00e1veis que os comuns, auxiliando na perda de peso e na melhora de outras condi\u00e7\u00f5es fisiopatol\u00f3gicas e de desconfortos gastrointestinais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da sens\u00edvel melhora na sa\u00fade de indiv\u00edduos com altera\u00e7\u00f5es relacionadas ao gl\u00faten, constata-se que n\u00e3o existem evid\u00eancias suficientes para apoiar as cren\u00e7as entre indiv\u00edduos que n\u00e3o s\u00e3o sens\u00edveis a esse pept\u00eddeo. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 perda de peso excessivo, por exemplo, \u00e9 dif\u00edcil afirmar se at\u00e9 mesmo pacientes cel\u00edacos s\u00e3o beneficiados, uma vez que estudos mostram que indiv\u00edduos obesos acometidos de DC podem ter seu IMC aumentado e que a preval\u00eancia de obesidade entre crian\u00e7as cel\u00edacas pode duplicar quando da ado\u00e7\u00e3o da dieta GF. Al\u00e9m disso, esse tipo de dieta \u00e9 frequentemente pobre em gr\u00e3os integrais e fibras, cujo consumo \u00e9 inversamente relacionado ao IMC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que concerne \u00e0 sa\u00fade gastrointestinal, um estudo experimental publicado em uma das mais respeitadas revistas da \u00e1rea demonstrou poss\u00edveis efeitos negativos da dieta GF sobre a flora intestinal de indiv\u00edduos saud\u00e1veis. Por conta da exclus\u00e3o de alimentos contendo trigo, no per\u00edodo de um m\u00eas houve redu\u00e7\u00e3o significativa na propor\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias ben\u00e9ficas que colonizam o intestino em rela\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias patog\u00eanicas nas fezes de 10 indiv\u00edduos adultos, fato provavelmente associado ao menor consumo de oligofrutose e inulina \u2014 frutanos do tipo inulina \u2014 os quais t\u00eam a\u00e7\u00e3o prebi\u00f3tica e, desse modo, estimulam seletivamente o crescimento de determinadas esp\u00e9cies bacterianas consideradas ben\u00e9ficas (bifidog\u00eanicas) ao hospedeiro. Por conta do efeito prebi\u00f3tico, pode-se ainda afirmar que o consumo de farinha de trigo integral por indiv\u00edduos n\u00e3o sens\u00edveis ao gl\u00faten contribui para a redu\u00e7\u00e3o do risco de c\u00e2ncer intestinal, de condi\u00e7\u00f5es inflamat\u00f3rias, de dislipidemias e de doen\u00e7as cardiovasculares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe, no entanto, destacar que dietas GF podem ser saud\u00e1veis para o p\u00fablico em geral, caso tome-se o cuidado de serem selecionados outros cereais integrais, al\u00e9m de hortali\u00e7as e alimentos com baixa densidade energ\u00e9tica. Entretanto, isto n\u00e3o implica na retirada do gl\u00faten ser a respons\u00e1vel por poss\u00edveis efeitos ben\u00e9ficos observados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, \u00e9 poss\u00edvel afirmar novamente que a falta de evid\u00eancias cient\u00edficas s\u00f3lidas faz com seja aceita a premissa de que a dieta GF per se n\u00e3o pode ser considerada ben\u00e9fica para indiv\u00edduos aparentemente saud\u00e1veis e que a falta de planejamento na sua institui\u00e7\u00e3o pode, ainda, potencialmente afetar a sa\u00fade do trato digest\u00f3rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lucas Carminatti Pantale\u00e3o<\/strong><br \/>\nNutricionista pela Universidade de S\u00e3o Paulo, Mestre em Nutri\u00e7\u00e3o Experimental e Membro do Laborat\u00f3rio de Biologia Molecular do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da USP.<br \/>\nMembro da Comiss\u00e3o de Comunica\u00e7\u00e3o da Sociedade Brasileira de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o \u2013 SBAN.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ludvigsson JF, Leffler DA, Bai JC, Biagi F, Fasano A, Green PH, et al. The Oslodefinitions for coeliac disease and related terms.Gut 2013;62:43e52.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sapone A, Bai JC, Ciacci C, et al. Spectrum of gluten-related disorders:Consensus on new nomenclature and classification. BMC Med. 2012;10:13.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcason W. Is there evidence to support the claim that a gluten-freediet should be used for weight loss? J Am Diet Assoc. 2011;111(11):1786.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dickey W, Kearney N. Overweight in celiac disease: Prevalence, clinicalcharacteristics, and effect of a gluten-free diet. Am J Gastroenterol.2006;101(10):2356-2359.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Valletta E, Fornaro M, Cipolli M, Conte S, Bissolo F, Danchielli C. Celiacdisease and obesity: Need for nutritional follow-up after diagnosis.Eur J ClinNutr. 2010;64(11):1371-1372.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Palma G, Nadal I, Collado MC, Sanz Y. Effects of a gluten-free dieton gut microbiota and immune function in healthy adult human subjects.Br J Nutr. 2009;102(8):1154-1160.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moshfegh AJ, Friday JE, Goldman JP, Ahuja JKC. Presence of inulin andoligofructose in the diets of Americans.J Nutr. 1999;129(7 suppl):1407S-1411S.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Glenn A. Gaesser, Siddhartha S. Angadi. Gluten-Free Diet: Imprudent Dietary Advice for theGeneral Population?J AcadNutr Diet. 2012;112(9):1330-1331.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Castillo NE, Theethira TG, Leffler DA. The present and the future in the diagnosis and management of celiac disease.Gastroenterol Rep. 2014, 1\u20139.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Czaja-Bulsa G, Non coeliac gluten sensitivity: a new disease with gluten intolerance. Clinic Nutr.2014, <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.clnu.2014.08.012\">http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.clnu.2014.08.012<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Sociedade Brasileira de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o levando em considera\u00e7\u00e3o dados da literatura cient\u00edfica pertinente e o documento a seguir, posiciona-se no sentido de que: a dieta sem gl\u00faten deve ser institu\u00edda na vig\u00eancia de doen\u00e7a cel\u00edaca, alergia ao trigo e de sensibilidade n\u00e3o cel\u00edaca ao gl\u00faten, desde que devidamente diagnosticadas; a dieta sem gl\u00faten [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":43,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-42","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"views":958,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44,"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42\/revisions\/44"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abip.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}